“Continuo buscando, re-procurando. Ensino porque busco, porque indaguei, porque indago e me indago. Pesquiso para conhecer o que ainda não conheço e comunicar e anunciar a novidade”.

Paulo Freire


quarta-feira, 21 de março de 2012

Psicogênese– conhecer a teoria para usar na prática

Eemiliamília Ferreiro e Ana Teberoski   na investigação dos processos de aquisição e elaboração de conhecimento pela criança - ou seja, de que modo ela aprende,  mesmo antes de entrarem na escola,descobriram que ela desenvolve tentativas de escrever, iniciando um processo de escrita informal  como representação da fala.Dessa descoberta concluíram que a criança “constrói” o conhecimento, através de teorias explicáveis, surgindo daí o  termo “construtivismo” que muitos equivocadamente chamam de método de alfabetização; Na verdade o “construtivismo” é o termo dado aos processos da construção da escrita e da leitura.
Na sua obra Psicogênese da Língua Escrita "a mudança da compreensão do processo pelo qual se aprende a ler e a escrever afetou todo o ensino da língua", produzindo "experimentação pedagógica suficiente para construir, a partir dela, uma didática" e não um método. Um dos maiores legados destas descobertas de Ferreiro e Teberoski é a psicogênese da escrita
em que a  criança elabora hipóteses sobre o sistema de escrita. Descobrir em qual nível cada uma está é uma importante ferramenta para os professores alfabetizadores levar os alunos à aprender.
É preciso entender  a psicogênese para usá-la em função, não somente, de conhecer como a criança está construindo o conhecimento e avançando para estágios mais avançados  como sentir que a  mediação do professor está favorecendo,realmente,o processo de alfabetização.
Inúmeras vezes os professores alfabetizadores,não percebendo os avanços de alguns alunos na alfabetização, chegam a pensar que há algum problema de aprendizagem com eles. 
Quando o professor conhecendo   e validando os testes da psicogênese  ele  percebe nitidamente o avanço maior ou menor de cada um,  e a partir desse conhecimento vai fazer um trabalho que favoreça o avanço nas hipóteses. Essa é a grande importância da psicogênese para o aluno e para o professor.
Lembrando que  a construção do conhecimento acontece com todos. E os testes devem se usados com os alunos da Educação Básica do Ensino Regular como na Educação Inclusiva, pois para quem ainda não experimentou vai ter a surpresa de ver que o ANEE também avança nas hipóteses, mesmo que em um ritmo bem mais lento, mas acontece. Ninguém fica congelado intelectualmente na aquisição de conhecimentos. Ninguém.
É importante usar a psicogênese no início do ano letivo e no final de cada bimestre, registrando todos os avanços, por menores que se apresentem para futuras comparações.
As hipóteses na construção da escrita são verdadeiras “teorias explicativas”  e assim se estabelecem:
1-pré-silábica – é a construção dos que ainda não perceberam a escrita representando a fala Ela se caracteriza em dois níveis. No primeiro, as crianças procuram diferenciar o desenho da escrita, identificando o que é possível ler. Já no segundo nível,(este é um nível mais demorado, é bom saber) : percebem a necessidade de uma quantidade mínima de letras para que alguma coisa esteja escrita (em torno de três) .Para escrever, a criança utiliza letras aleatórias (geralmente presentes em seu próprio nome) e sem uma quantidade definida.
2-hipótese silábica – a criança começa à perceber que para cada parte  falada ( sílaba oral) ele pode grafar uma letra. Essa etapa  pode ser dividida em dois níveis: no primeiro, chamado silábico, ela representa cada sílaba por uma única letra qualquer, sem relação com os sons que ela representa. No segundo, o silábico com valor sonoro, há um avanço e cada sílaba é representada por uma vogal ou consoante que expressa o seu som correspondente. O avanço nesta hipótese é menos demorada.
3-hipótese silábico-alfabética  - corresponde a um período de transição no qual a criança trabalha simultaneamente com duas hipóteses: a silábica e a alfabética. Ora ela escreve atribuindo a cada sílaba uma letra, ora representando as unidades sonoras menores, os fonemas. Quando a escrita representa cada fonema com uma letra, diz-se que a criança se encontra na hipótese alfabética. Nesse estágio, os alunos ainda apresentam erros ortográficos, mas já conseguem entender a lógica do funcionamento do sistema de escrita alfabético.
 Como realizar um teste da psicogênese para se alcançar os seus objetivos?
-É recomendável que seja feito com cada aluno por vez, individualmente. Enquanto  a turma se encontra  envolvida com jogos recreativos o professor, em um outro ambiente tranquilo vai proceder o teste que deve constar de 4 (palavras) e uma frase.O ditado deve ser iniciado por uma palavra polissílaba, seguida de uma trissílaba, de uma dissílaba e, por último, de uma monossílaba – sem dar ênfase á separação de sílabas ao ditar. Lembrando que na frase use pelo menos uma das palavras usadas no ditado ( para a análise da forma como grafada mesmo se houver um contexto diferente). De acordo com as orientações de Emília Ferreiro, que as palavras sejam do mesmo campo semântico.
Sugestão para teste da Psicogênese
Com fundamento nas conclusões de Emília Ferreiro, na construção da escrita pela criança, fica claro que a criança constrói conhecimentos dentro do seu contexto de vida, em outras palavras, através de experiências vivenciadas e de de alguma forma significativas. Resumindo, toda aprendizagem acontece em um contexto significativo, então o teste deve ser feito através de estímulos que tenham significados para a criança. Realizar o teste sem significação para a criança não se chega à conclusões reais.
“Os aspectos motores, cognitivos e afetivos são importantes, na medida que tratados no contexto da realidade sócio-cultural dos alunos. “Hoje a perspectiva construtivista considera a interação de todos eles, numa visão política, integral, para explicar a aprendizagem” diz Ferreiro.
Acreditando nestes postulados das bases da construção do conhecimento elaborei uma atividade de estimulação e motivação que pudesse trazer de dentro da criança, do seu contexto de vida, de experiências vivenciadas realmente ou no imaginário, de conhecimentos prévios para o teste da hipóteses psicogenéticas.
Por ter um caráter de difícil sondagem( conhecimento significativo) , nesta atividade  está contida uma provocação, através da apresentação de uma série de gravuras , escolhidas dentro dos critérios considerados ( conhecendo previamente a turma em seus aspectos sociais e culturais) prováveis e até os improváveis de estarem contidos nas experiências de vida dos alunos. Veja algumas imagens.
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Estas imagens coladas em retângulos de cartolinas são imagens sugestivas de situações de vidas, atividades da vida diária  e vários eventos sociais, como jogadores de futebol, celebridades, artistas da mídia, políticos, imagens de animação da tevê, cantores de música popular, imagens de famílias ricas, famílias pobres; pessoas da raça branca, da raça negra;  crianças só com pais, crianças só com mães, na escola, com professores, brincando, comendo;, datas comemorativas, como o natal, papai Noel, presentes, árvores de natal; contos infantis, crianças brincando; computadores, celulares, pessoas bonitas, pessoas feias; policiais, pessoas felizes, pessoas tristes,  feridas, luto… dentre tantas outras.
Como usar esta atividade.
Esta é uma das atividades usadas também para avaliação pedagógica da interpretação, linguagem escrita,(texto espontâneo) com fins de psicodiagnóstico com alunos de 3ª ao 5º ano. Para cada gravura tenho um antecipadamente preparada as quatro palavras do mesmo campo semântico e uma frase. (Veja no final desta postagem – sugestões de várias palavras do mesmo campo semântico, para serem usadas nesta atividade.)
Em avaliações da psicogênese, o teste é aplicado individualmente.
Vejam os passos:
1-São oferecidas de 3 (três) à 5 (cinco) gravuras de cada vez para que o aluno, convidado a observar bem, selecionar a que mais gostou. Este procedimento se repete até que ele veja todas e de cada grupo selecione uma. E depois ele faz a escolha final de uma só, a que mais gostou. Interagindo com o aluno incentivá-lo a observar bem e fazer sua escolha concordando que ele escolheu bem, e que parece difícil, a escolha, mas ele tem que escolher somente a que mais gostou.
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2- Após escolhida a imagem peça que ele fale sobre ela. Tudo que aquela figura lhe fez lembrar, sentir, gostar. Fale com ele sobre detalhes e sobre o que foi mais importante no todo. Provoque bastante, para que seja possível tirar do próprio relato do aluno, as 4 (quatro) palavras do teste ( que foram previstas para aquela imagem) . Caso não tenha falado sobre alguma ( a polissílaba, por exemplo, na hora do ditado, acrescente a que faltou e correlacione com o texto). Se usar esta técnica (SEAA) para avaliação da linguagem oral e escrita do aluno (3ª ao 5º ano) peça que faça um texto (escreva o que você contou…). Tanto o ditado como o texto devem ser feitos numa folha pautada.  Quanto ao ditado,( tenha previamente as  palavras do mesmo campo semântico). Faça um ditado normalmente, não há necessidade de repetir a palavra e nem mesmo de destacar sílabas, e anote, para não esquecer o termo correto que foi ditado, para análise futura. Na próxima sondagem ( que deve ser feita a cada final de bimestre, pode deixar a gravura, em meio às outras, se escolher a mesma, melhor ainda pois verá os avanços na escrita, mas permita que ele escolha, pois é um outro momento de sua vida).
DSC01404    Estas imagens para que ilustram este artigo, foram feitas até o momento em que o aluno, sem saber qual atividade iria fazer, (é recomendável,não dizer que é um teste), escolheu esta a gravura de uma criança pequena tentando colocar o dedo na tomata de eletricidade. Daí ficamos sozinhos e ele relatou que sua irmã havia feito isso, e que causou uma grande confusão e que foi preciso esconder algumas tomadas com móveis e outras a mãe colou uma fita adesiva, mas que ainda assim era perigoso … 
O aluno cursa o 3º ano e está com desempenho baixo na escrita e leitura, com defasagem e aparente dificuldades de aprendizagem. Então foi feito do teste da psicogênese.

O ditado deve ser iniciado por uma palavra polissílaba, seguida de uma trissílaba, de uma dissílaba e, por último, de uma monossílaba :as 4(quatro )palavras do campo semântico ditada, tiradas do relato do aluno foram:

polissílaba: eletricidade
trissílaba: energia
dissílaba: usina
monossílaba: luz
teste(no caso da palavra dissílaba, durante a exploração da gravura fiz uma intervenção sobre a origem da energia e acrescentei a palavra USINA; a  monossílaba, fiz uma intervenção em relação á tomada  “dá prá acender uma luz ( lâmpada) ligando um abajur na tomada? ele concordou e acrescentei a palavra monossílaba)
Frase: A energia dá choque.
ATENÇÃO: AS PALAVRAS DO MESMO CAMPO SEMÂNTICO USADAS NO TESTE DA PSICOGÊNESE SÃO AS PALAVRA QUE  ESTEJAM AGREGADAS POR UMA UNIDADE DE SENTIDO.
Veja na próxima postagem uma lista de palavras que podem ser usadas
( mesmo campo semântico)

Por Julia Virginia de Moura – Pedagoga


Referência


Psicogênese da língua Escrita, de Emilia Ferreiro e Ana Teberosky. Ed. Artes Médicas, Av. 
Jerônimo Ornelas-
 Porto Alegre. RS. 




A Escrita e a Escola, de Ana Maria Kaufman. Ed. Artes Médicas. 


Alfabetização em Processo, de Emilia Ferreiro. Ed. Cortez. R. Bartira. 387. CEP 05009-000. São Paulo. SP. Tel: (011) 864-0111.  




3 comentários:

  1. nos alunos de segundo ano que já produzem texto recontando, como avaliar a escrita do texto segundo o psicogênese?

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    Respostas
    1. Irismar
      desculpe a demora , mas ficou uma dúvida o reconto que as crianças estão fazendo é oral ou com algum tipo de registro gráfico?

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  2. Excelente trabalho, parabéns por contribui para o ensino e aprendizado de muitas outras pessoas.

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