“Continuo buscando, re-procurando. Ensino porque busco, porque indaguei, porque indago e me indago. Pesquiso para conhecer o que ainda não conheço e comunicar e anunciar a novidade”.

Paulo Freire


quinta-feira, 4 de novembro de 2010

SEXUALIDADE INFANTIL - IMITAÇÃO, BRINCADEIRAS E DESCOBERTAS...

SEXUALIDADE INFANTIL – IMITAÇÃO, BRINCADEIRAS E DESCOBERTAS... UM ESTUDO DE CASO

     Em tudo é preciso ter um “olhar além” para se perceber o universo das possibilidades, de se ter mais sucessos do que fracassos, quando se trata de cuidar de vidas humanas.
      Este trabalho, Estudo de Caso, realizado numa escola pública da periferia de Brasília, cidade satélite de Planaltina-DF, resultou de “uma escuta” á duas crianças e as “brincadeiras”, relativas á sexualidade, desprovidas de malícia, ou outras intenções, que estavam praticando na sala de aula e em outros ambientes, com a finalidade de um planejamento de um Projeto de Orientação Sexual; percebemos que tais brincadeiras muito em breve passariam por transformações e finalidades, desnecessárias e prejudiciais sob vários aspectos, neste período de suas vidas, e para o futuro destas crianças, quando levantamos uma investigação mais aprofundada.
       Tudo começou com:
“A queixa da mãe de “H” , levada até á professora, sobre “N” , estar entrando no banheiro das meninas, e o de “B, da mesma sala de aula, estar passando a mão nas meninas… quando foi investigado com mais atenção descobriu-se que a brincadeira, era uma só, em vez de duas, e que havia uma parceria… o que para os dois meninos era muito divertido, pois davam risadas, como se fosse à coisa mais engraçada que haviam aprendido”…



       Buscando levantar a história de vida do aluno “B”, que vinha de outra escola, o perfil que se formou deixou a Equipe bastante preocupada, pois demonstrou que havia uma variável muito grande de estimulações á sexualidade precoce e a outros comportamentos anti sociais, que pediam para ser consideradas urgentemente.
      Buscamos através dos profissionais da Equipe de Apoio, professores, e todos os documentos referentes ao histórico do aluno, na escola de origem. E as evidências devidamente documentadas através de relatórios, encaminhamentos á tratamentos psicológicos, e inclusive solicitações ao Conselho Tutelar, quanto a intervenções junto á família, desde que esta não prestava nenhuma colaboração no sentido de ajudar a escola a encontrar alternativas de vida para “B”.
       Os registros da escola de origem datavam desde o ano de 2006 (4 anos) de tentativas de ajudar “B”, nos diversos problemas que apresentava na escola. Com uma história de vida marcada desde a concepção por eventos negativos, mãe usuária de drogas rejeitou o filho, o pai presidiário, esteve desde a 1ª infância sob os cuidados da avó, proprietária de um bar, ponto de prostituição, cresceu num ambiente familiar desestruturado e de relações nada saudáveis.
       Quando se conversa com “B” observa-se sobre educação somente os ensinamentos básicos, sem princípios e valores morais, regras e limites, boas maneiras, respeito ao próximo... Solitário, sem afetividade, agressivo, grosseiro na maneira de se expressar, negligenciado... enfim, passou os principais anos de sua infância com a ausência de mínimos sentimentos  humanitários.  “Avó diz: faço muito em cuidar dele”. Cuida dele, num ambiente de prostituição onde ele presencia toda a espécie de relacionamentos degradáveis próprios dos seus freqüentadores.
       Quanto ao seu desempenho escolar e sua capacidade de aprendizagem, embora diante de uma pobreza extrema de estímulos, “B” apresenta um cognitivo preservado, desenvolvimento normal da psicomotricidade, identifica algumas letras, escreve e lê apenas o pré-nome, identifica números e quantidades até 9. Está defasado em conteúdos na série que cursa (2ª série), não tem interesse pelas atividades pedagógicas, é infrequente. Aprecia jogos, computador (diz não possuir em casa TV e nem games). Não gosta de estudar. Atrapalha os colegas. Apresenta dificuldades de atenção e não tem  concentração (apenas nas aulas),  demonstra agitação, por falta de regras e limites.
        O companheiro de “brincadeiras” vem de uma família desestruturada, pais alcoólatras, sofre maus tratos quando vão reclamações da escola, é agressivo, e não tem dificuldades de aprendizagem e acompanha o nível da turma no seu processo de letramento.
        Conclusões: não há como ter parcerias com as famílias, pois qualquer chamada na escola para conversas, orientações, o aluno recebe em troca maus tratos, castigos físicos.  “B” já saiu da fase das brincadeiras e já entrou nas descobertas da sexualidade e dos comportamentos violentos que presencia dos usuários do álcool e da prostituição. Já reproduziu um ato violento de “furar” um garoto vizinho, fora da escola. E o seu caso, foge totalmente ao trabalho de atendimento da Equipe de Apoio á Aprendizagem, e passamos ao Conselho Tutelar, pois a família e a criança precisam ter acompanhamento e tratamento psicológico, oferecido pelo Sistema Público de Saúde - COMPP
       Quanto á “N” está inserido nos atendimentos da Equipe, e participará dos Projetos de Orientação Sexual, caso não surjam outros fatores determinantes de comportamento anti social.
        Sabemos que a existências de nossas crianças, no mundo moderno são permeadas de conflitos; vivem em ambientes contrários ao seu crescimento e desenvolvimento dentro da normalidade; e sem a parceria das famílias, tudo fica senão impossível, difícil.
      O que puder ser feito por elas, no âmbito da educação, da orientação, da afetividade, da busca da proteção de instâncias maiores que possam de fato ajudá-las, estamos de corações abertos.
       
     
       



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