“Continuo buscando, re-procurando. Ensino porque busco, porque indaguei, porque indago e me indago. Pesquiso para conhecer o que ainda não conheço e comunicar e anunciar a novidade”.

Paulo Freire


sábado, 27 de novembro de 2010

A EQUIPE DE APOIO PEDAGÓGICO CONTA HISTÓRIAS DO SEU COTIDIANO...

A EQUIPE DE APOIO PEDAGÓGICO CONTA HISTÓRIAS DO SEU COTIDIANO...

LUTOS E PERDAS...
                                                               
 (os nomes usados são fictícios)
        
      Fevereiro de 2010, início do ano letivo.
       Semana Pedagógica, os professores escolhendo turmas, planejamentos, decoração das salas de aula... A Equipe de Apoio Pedagógico deixando a sala de Atendimentos bem “acolhedora”... organização de arquivos, fichas de encaminhamentos, planejamento das oficinas pedagógicas...

         Os alunos chegam finalmente, muita alegria, risos, correria á procura das salas... a escola voltou a ser a escola, novamente!
              Organizando o material da Equipe, pastas, formulários, murais, quando inesperadamente surge uma solicitação de atendimento. Surpresa! Na primeira semana de aula supõe-se que o professor ainda não conhece o seu aluno, e se conhece ainda não realizou com ele nenhum trabalho interventivo que pudesse sanar qualquer dificuldade... mas guardamos tudo rapidamente para “escutar”, o professor... mas não se tratava do professor, mas da vice-diretora. Sentamos, fechamos a porta para ouvir, o que poderia ser?
  
         “Gostaria que você atendesse o “Pedro”, 10 anos, 4ª série. A professora pediu que eu falasse com a família, pois ele nunca veio prá escola como está vindo: sujo, não está tomando banho, e parece diferente...” antes de chamar a família,disse ela, pensei em falar com ele, e pedi alguém prá dizer ao “Pedro” que viesse até a minha sala. Eu estava na porta e assim que “Pedro” me viu, se aproximou chorando, dizendo: “tia, minha mãe morreu...”, conversei com ele e pedi que a família viesse á escola.”
         Esse é aquele momento que é preciso saber bem o que fazer o que dizer...
        Como no 1º bimestre, não há encaminhamentos de “queixas” dos professores em relação a dificuldades de aprendizagem, pensamos em passar nas salas, com uma ficha de encaminhamento ao Apoio, caso houvesse, algum aluno com problemas emocionais já conhecidos ou de algum acontecimento recente;  pensamos em formar um grupo de 8 a 9 alunos, para o primeiro bimestre, de Oficinas Pedagógicas de Auto Estima, onde “Pedro” seria atendido.
     A surpresa foi maior, porque havia vários casos de crianças em estados depressivos por luto e perdas, vejam:
   “Ana Júlia, 3ª série, 9 anos – o irmão de 13 anos envolvido com traficantes estava desaparecido, já havia  um mês. (depois do primeiro mês de atendimento na Equipe deApoio Pedagógico, o irmão de “Ana” foi encontrado num matagal, esquartejado).



"Ygor”, 10 anos, 4ª série – morte (natural) da avó, a cuidadora dele, pois a mãe é ausente, apático e praticando automutilação.


 “Camyla”, 8 anos, 2º ano – separação dos pais, isolada, desinteressada nas aulas, comportamento anti-social (praticando pequenos furtos, na escola e em casa).

 “Leonardo”, 8 anos, 3º ano, sofrendo maus tratos, negligência, enfermidades orgânicas, família sendo acompanhada pelo Conselho Tutelar – calado, com dificuldades de aprendizagem acentuada.

  “Yago”, 8 anos, 3º ano, obeso, mãe alcoólatra, sofre negligência, indisciplinado, agressivo, sofrendo bullying na sala, péssimo desempenho em sala de aula.
 
  “Daniel”, 7 anos, 2º ano, junto com a irmã mais velha presenciou uma cena de violência na rua e a mãe sobreviver á uma “bala perdida”. Ora agressivo, ora deprimido, medo, pesadelos.

 “João Paulo”, 10 anos, 4ª série. Aos 5 anos presenciou o suicídio da mãe, depois de uma briga entre os pais; tem medo da morte, dos familiares morrem, quer protegê-los, problemas de relacionamento com a madrasta.


          E a história que inspirou a busca deste grupo, o “Pedro”, 10 anos, 4ª série – a mãe morreu durante o período das férias, estavam sob os cuidados das avós, “catadores de papel”, que ficam fora todo o dia. Solidão, tristeza, ao mesmo tempo, euforismo, empenho em criar projetos com os colegas,  procura de amigos, de família.

            Todos depressivos, apáticos ou agressivos; mudança do comportamento, dificuldades de atenção, concentração em sala de aula, isolamento e baixo rendimento escolar.
                                                              
        Formamos um grupo de Oficinas Pedagógicas de Auto Estima, e realizamos com essas crianças, o “Projeto Contos de Fadas”, com duração prevista de um bimestre com dois encontros semanais, um para Oficina de Auto Estima e o outro para o projeto “Contos de Fadas”.
         O “Projeto Contos de Fadas” é um projeto que  visa tirar os alunos das dificuldades de aprendizagem, quando elas surgem de conflitos emocionais. 
 É um projeto que, através dos contos de fadas, de forma lúdica, fabulosa, facilita á criança, caminhos que levem aos valores da afetividade, o equilíbrio das emoções, elevando a auto estima


       Bruno Bettelheim – em “a Psicanálise dos Contos de Fadas” (1991) diz assim: “... as crianças de hoje, já não crescem na segurança de uma grande família ou de comunidade bem integrada... e é nesse contexto que a criança precisa mais do que nunca de um instrumento de equilíbrio interior, para que possa obter um desenvolvimento melhor de suas estruturas individuais. Elas precisam de heróis, que tem que se lançarem no mundo, sozinhos, e que apesar de não saberem como é que as coisas vão se resolver encontra lugares seguros, seguindo em frente, com profunda segurança interior.”      
        
       Foi um trabalho longo e difícil, em que alguns alunos permaneceram até o final do ano, ainda em meio ao processo de superação dos estágios do luto. Alguns chegaram ao último estágio, o da reconstrução, como foi o caso do “João Paulo”, “Leonardo”, “Ana Júlia” e “Camyla”.  Alguns passaram de um estágio á outro, enquanto outros permaneceram no estágio em que chegaram, porque a família não colaborou;  quando  a família chega junto com a escola, fica mais fácil. Lembrando ainda, que a passagem pelos estágios do luto é percurso  muito pessoal.
         Um dos recursos que acreditamos que mais exerce um efeito significativo na ajuda ás crianças diante dos conflitos emocionais é o “Projeto Contos de Fadas”, em que Bethelleim faz a seguinte analogia:
        
         “Os contos de Fadas garantem á criança que as dificuldades podem ser vencidas, as florestas atravessadas, os caminhos de espinhos desbravados e os perigos mudados, por mais pequeno e insignificante que seja quem pretende vencer as dificuldades da vida. E a criança desprotegida por natureza, sente que, também ela, pode ser capaz de vencer os seus mais secretos medos”.


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