“Continuo buscando, re-procurando. Ensino porque busco, porque indaguei, porque indago e me indago. Pesquiso para conhecer o que ainda não conheço e comunicar e anunciar a novidade”.

Paulo Freire


quarta-feira, 20 de outubro de 2010

O ADOLESCENTE E A VIOLÊNCIA

                                              ADOLESCÊNCIA E VIOLÊNCIA
Um conjunto de transformações sócio-psicológicas, físico-metabólicas, expõe o indivíduo que inicia a fase da adolescência, á um novo modelo de vida totalmente desconhecido, que o deixa vulnerável, atormentado e perplexo, e de certa forma perdido em meio a diferentes valores morais.
François Marti* analisa que “O adolescente não é uma criança que cresce. È um processo psíquico que se apresenta de diversas maneiras quando surge à puberdade, que lhe causa uma estranheza ante as mudanças de seu corpo, quando, então, ele perde sua identidade...”
Essa estranheza que o adolescente sente em relação ao próprio corpo, torna-se a fonte maior da sua violência interna, diante da qual ele procura maneiras de defender de si mesmo, através de uma ação motora violenta.
Os ataques que os adolescentes fazem ao próprio corpo: tatuagens, pircings, bulimia, anorexia até mesmo o suicídio, são manifestações da violência interna, quando o adolescente precisa compreensão e não repressão.
Quando esta violência é direcionada ao outro, é um ato de tornar o outro responsável, colocando para fora o que dentro dele está mal. É uma forma de defender-se do que não pode compreender: a si mesmo.
“A violência é uma energia que pede para ser orientadaMarti, 2010
A família desempenha um papel muito importante no desenvolvimento do adolescente e na forma como ele vai lidar com essa estranheza do corpo e os processos psíquicos que surgem.
Nesta fase, o indivíduo, o adolescente, precisa ser ouvido, receber atenção, se sentir “alguém”, e não rejeitado e criticado como é comum, pela família, escola e a comunidade, o que só faz o sentir-se pior.
A literatura mostra dois estilos parentais que as famílias exercem com os filhos, principalmente, os adolescentes. Estes dois estilos são constituídos de dois importantes componentes: exigência e responsividade. E da combinação destes componentes temos:
-pais autoritários, exigentes, com baixa responsividade, que dão pouca atenção ás necessidades dos filhos;
-pais autoritativos, que são democrático-recíprocos, ou competentes, alta responsividade, aceitação e exigência. Comunicam-se bem com os filhos e estão dispostos a aceitar suas exigências.
-pais permissivos que apresentam alta responsividade, aceitação, baixa exigência, comunicam-se bem com os filhos e utilizam o diálogo para conseguir inibir comportamentos indesejáveis, exigem pouco e permitem que os filhos regulem suas próprias atividades, levando-os a raciocinarem sobre suas ações.
Com base nos estilos parentais a Universidade da Paraíba, Universidade Federal de João Pessoa e o Ministério Público realizaram uma pesquisa, para investigar o ajustamento escolar, entre 800 alunos, entre 11 e 20 anos, dos sexos femininos e masculinos, de escolas públicas e particulares, em João Pessoa-Pa, e os resultados estatísticos demonstraram que:
- filhos de pais negligentes, e principalmente, de pais autoritários apresentaram dificuldades no ajustamento escolar, com dificuldades acadêmicas, dificuldades disciplinares nos relacionamentos com professores e colegas. Sem diferenças entre escolas particulares e públicas.
Conclui-se diante desta análise que o comportamento violento do adolescente está estreitamente ligado ao convívio com a família, escola e seus pares.
É preciso saber ouvi-lo para ajudá-lo a se situar no ambiente em que está situado indiretamente, como o trabalho dos pais, religião, ideologias e formas de governo..; e diretamente em seus papeis sociais, a escola, e suas atividades pessoais.
A maioria dos jovens adolescentes que não conseguem se identificar dentro de seus grupos sociais tornam-se agentes ou vítimas da violência, do bullying, e podem acabar sendo atraídos para as “gangues” e para o tráfico de drogas, onde são aceitos, valorizados; e a violência é que vai dar a eles a identidade que procuram: encontram respeito e valorização.
A escola como acolhedora destes jovens, onde eles passam a maior parte do tempo, precisa estabelecer grupos de jogos cooperativos, dança, bandas de música, esporte, entre outros, para que estes adolescentes encontrem seus pares, que de alguma maneira vai proporcionar um equilíbrio para seus conflitos e canalizarem essa energia violenta gerada pela “estranheza narcísica” de forma saudável, dentro da inclusão social.
*François Marti- Psicanalista, Professor de Psicologia Clínica, Diretor do Instituto de Psicologia – Université Paris Descartes – , Presidente do Collège International  de l’Adolescence – CILA – autor do livro “Destinos da Adolescência” françois.marty@univ-paris5.fr –

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