“Continuo buscando, re-procurando. Ensino porque busco, porque indaguei, porque indago e me indago. Pesquiso para conhecer o que ainda não conheço e comunicar e anunciar a novidade”.

Paulo Freire


domingo, 24 de outubro de 2010

A EQUIPE DE APOIO Á APRENDIZAGEM CONTA HISTÓRIAS DO SEU COTIDIANO…

        A SEDF – Secretaria de Educação do Distrito Federal implantou, em 2008, o projeto Classes de Aceleração da Aprendizagem - Anos Iniciais ­- Acelera DF, com o objetivo de combater a distorção idade-série. Esta ocorre em virtude de múltiplas repetências e do abandono escolar, fazendo com que os alunos fiquem defasados em relação à série esperada para a idade.
       O projeto de aceleração da aprendizagem tem o objetivo de possibilitar que esses alunos superem as defasagens de conhecimento e voltem a estudar no ensino regular, junto a colegas de idade aproximada, e completem a sua escolarização.
      Para tanto, adota uma metodologia diferenciada, com a finalidade de permitir que os alunos desenvolvam competências e habilidades previstas para as quatro primeiras séries do Ensino Fundamental em um prazo menor do que o normal, possibilitando uma nova enturmação escolar ao final do projeto.
       Estudos realizados no Brasil e em outros países demonstram que a distorção idade-série produz impactos negativos sobre a auto-estima dos alunos, muitas vezes desestimulando-os a prosseguir os estudos e levando-os a abandono escolar.
       O Acelera DF se destina aos alunos com distorção idade e série de dois anos ou mais, na faixa etária de 9 a 14 anos, matriculados da 1ª a 4ª série do Ensino Fundamental.
        As turmas do Acelera DF são constituídas por alunos alfabetizados dos anos iniciais do Ensino Fundamental. A seleção de alunos para a formação das turmas é feita mediante aplicação de prova diagnóstica específica. http://www.se.df.gov.br/300/30001007.asp?ttCD_CHAVE=13428
        O Projeto Acelera tem excelentes objetivos, porém difíceis de serem são alcançados, porque, geralmente ,o perfil da clientela, tais como, alunos provenientes de lares desestruturados, auto estima baixíssima, não obedecem regras e limites, indisciplinados... são características dos adolescentes que vão compor estas turmas, além das que são exigidas, (acima citadas),e que não são consideradas, como agrupamentos que desarticulam os objetivos do programa, caso o professor não esteja preparado para esse desafio;
        Os professores mais experientes não querem trabalhar com essas turmas , pois conhecem a problemática, e possuem direito de escolha de turma; e quem vai trabalhar com todas as dificuldades possíveis e imagináveis são os professores novos na profissão ou contratos temporários, com pouca experiência também.
         Este projeto tem tudo para dar certo exceto,por agrupar, numa mesma turma alunos que pelas suas histórias de vida, são os mais indisciplinados, violentos e agentes/e ou como vítimas do bullying, numa escola de Ensino Fundamental.
       Toda essa introdução é para relatar uma das histórias de maior grau de violência que presenciamos e que se encaixa dentro do posicionamento e análise do Professor François Marty.
        É a história de “G” uma adolescente de 11 anos, que mora com a família: mãe,( não conhece o pai), avó,avô,dois tios, quatro irmãos, numa mesma casa onde não há higiene, e sofre negligência desde pequena. Não tem hábitos de higiene, toma banho de vez em quando. A avó é alcoólatra, o irmão faz uso de drogas e a mãe é ausente. Em sua personalidade apesar de ser do sexo feminino, desafia os colegas, provoca brigas, fala palavrões e quando não está na escola, é “flanelinha”, guardadora de carros, num dos estacionamentos da cidade. Usa o dinheiro que ganha para comprar lanches. Diz que quase não há o que comer em casa, com tanta gente.
       Na escola, “G” é sempre provocada, pela sua falta de higiene, chora, briga e devolve as provocações. Quanto ao seu processo de letramento, lê e escreve poucas palavras, totalmente desinteressada das atividades pedagógicas e raro o dia que traz pra escola material básico, como lápis e borracha.
       “G” provoca discussões e brigas com meninas e meninos e numa dessas provocações dirigidas ao colega “E”, do sexo masculino, 11 anos, este reagiu com ameaças do tipo “vou te pegar lá fora”.
       “E”, é um aluno que dentro de sala não foge ao padrão de comportamento e de aprendizagem dos demais colegas.
       Vem de uma família, de pais separados, demonstra ter medo do pai que raramente vê, e mora com a avó e a mãe... que recentemente deixou-os para viver um outro relacionamento. Quem cuida de “E”, é avó, que pede pra não chamar o pai, pois ele é violento, e a mãe “falou que não te queria quando foi embora com o outro “marido”... (isso a avó disse ao “E”)
        Neste 2º semestre, durante a aula, ”E” desmontou um apontador de lápis do tipo pequeno, e ficou com o pequeno estilete fazendo brincadeiras na sala, quando a professora tomou a lâmina. Terminando as aulas, “E” pediu de volta o estilete. E como de hábito saíram todos em algazarras, empurrões, gritos...
       Ultrapassado os portões da Escola, “E” agrediu a “G” com o estilete, fazendo um corte em suas costas,na altura dos ombros, que encaminhada ao hospital local, necessitou 18 pontos. E “E” feriu as próprias mãos neste ataque.
      Em poucos momentos chega a família: a avó de “G” alcoolizada e o irmão drogado.Gritarias, ameaças... e toda a comunidade escolar assustada com o fato.
      No dia seguinte “G” chega na escola dentro de um euforismo fora do normal. Não era uma vítima, era uma heroína. Mostrava a todos, o corte nas costa como se fosse um troféu.Não houve dores físicas, lágrimas ou auto piedade, em momento algum. E reproduzia a história, em alto e bom som, numa narrativa cheia de detalhes e mais ameaças contra o colega, á quem quisesse ouvir ou saber, não somente na comunidade escolar, mas em todo o setor da cidade onde mora, nas imediações da escola, se referindo ao fato: “... fui esfaqueada na escola”.
      Aí, chegou até a mídia local, que foi á escola, registrar o fato, filmar o ambiente e entrevistar a mãe de “G”, que só neste momento, apareceu.
       Quanto ao agente da agressão, foi chamado o pai, para que tomasse as atitudes repressoras... E o garoto ficou desaparecido da escola, por duas semanas, acredita-se por medo das ameaças da família de “G”, principalmente do irmão usuário de drogas, que ameaçou mata-lo.
       Quando “E” retornou á escola, evitando brigas e provocações apenas com “G”, tudo voltou ao que era antes...
      De acordo com as analises do Professor Marty, entre os fatos observados, ficou claro a falta da presença da família, no seu dia-a-dia, cuidando dos seus adolescentes e um projeto de escuta e acolhimento, e ações preventivas da escola, estabelecendo metas contrárias a violência e suprindo de alguma forma este vazio familiar, em que nossas crianças estão vivendo.
      E o que causou espanto á Equipe, (que não é uma equipe multidisciplinar, pois não possui psicólogo, e nem orientador educacional), foi “como a “G” ficou feliz por encontrar uma identidade, uma visibilidade... embora de uma forma negativa, e o quanto os dois, “G” e “E” precisam dos pais, dos adultos que os amem, compreendam, conversem com eles, confirmando uma inclusão social, sem a necessidade da violência para isso.

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